
Quando estava quase concluindo a redação de A Geração Ansiosa no verão de 2023, Jon Haidt percebeu que havia deixado uma lacuna. O livro abordava o colapso da saúde mental, da atenção e da socialização da Geração Z, mas leitores mais velhos frequentemente comentavam: "isso está acontecendo comigo também". Haidt reflete que a transição global para uma vida baseada em celulares está transformando a consciência de todos. Mas como isso ocorre? O que exatamente está acontecendo conosco?
A partir de sua primeira obra, A Hipótese da Felicidade, que explorou ideias antigas sobre como viver bem, Haidt começou a notar que a vida mediada por smartphones e redes sociais nos empurra para modos de viver que contradizem as tradições religiosas e filosóficas ancestrais. Essas tradições nos ensinam a ser lentos para julgar e rápidos para perdoar, além de oferecer práticas como a meditação, que acalma a mente e abre o coração.
No Capítulo 8 de A Geração Ansiosa, Haidt delineia seis dessas contradições, resumindo que a vida baseada em telefones diminui nossa humanidade, degradando-nos moral, espiritual, social e cognitivamente. Desde então, ele tem buscado outros que possam expressar essa perda de humanidade de maneira mais eficaz. Entre eles, cita L.M. Sacasas, Nicholas Carr e Christine Rosen, esta última autora do livro A Extinção da Experiência: Ser Humano em um Mundo Desencarnado, que ele elogiou ao ler um rascunho.
Christine Rosen explica que os humanos, ao longo da história, sempre buscaram preencher momentos de tédio, mas hoje, o smartphone se tornou a máquina que elimina a monotonia. No entanto, esse triunfo sobre o tédio pode ser uma vitória pírrica. A rápida adoção das redes sociais e smartphones, especialmente entre os jovens, trouxe consequências negativas, como aumento da depressão e solidão. Nossas tentativas de eliminar o tédio prejudicaram nossa capacidade de deixar a mente vaguear e de cultivar a paciência.
Ela argumenta que o tédio tem um propósito e que devemos dar a nossas mentes mais oportunidades para experimentá-lo. Em seu artigo, Christine explora como a tecnologia, ao tentar nos livrar do tédio, capturou quase totalmente nossa atenção e levou à morte do devaneio. A cultura atual, centrada na eficiência, também compromete o ato de sonhar acordado, que é essencial para a criatividade. Rosen afirma que, ao priorizarmos a eficiência, perdemos a capacidade de antecipar e nos preparar emocionalmente para o futuro.
A perda de momentos intersticiais, aqueles pequenos intervalos de tempo que antes eram utilizados para reflexão ou conversas, é uma das consequências mais profundas dessa mudança. Antes, esses momentos eram preenchidos com devaneios, mas agora são frequentemente ocupados por smartphones. Isso não apenas afeta a criatividade, mas também reduz a nossa capacidade de lidar com a frustração e a espera, transformando a experiência de aguardar em um incômodo a ser resolvido.
O desafio não é apenas para os jovens, pois mesmo pessoas acima de sessenta anos passam mais da metade de seu tempo livre em frente a telas, segundo pesquisas. O mundo moderno, onde tudo é acessível de forma instantânea, faz com que esperas se tornem um fardo, e a prática da paciência e da antecipação se percam. Rosen sugere que devemos revalorizar momentos de inatividade e permitir que nossas mentes vagueiem, pois isso é fundamental para o desenvolvimento da criatividade e da saúde emocional.
Por fim, Christine encoraja uma reflexão sobre como lidar com o tédio e a importância de ensinar as crianças a enfrentá-lo. Ela propõe que os pais incentivem os filhos a brincar ao ar livre e a encontrar suas próprias soluções criativas para o tédio, em vez de recorrer a distrações tecnológicas. A verdadeira rebeldia, sugere ela, pode ser simplesmente permitir-se sonhar acordado em vez de pegar o celular a cada momento livre.
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