
Um estudo publicado recentemente na revista Science revela que os atuais níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera terrestre são comparáveis aos de 14 milhões de anos atrás, período em que o planeta passava por mudanças climáticas significativas, e muito antes da evolução da espécie humana. A pesquisa, que representa um esforço conjunto de sete anos de 80 cientistas de 16 países diferentes, não só reavaliou dados anteriores, mas também utilizou informações atualizadas para construir um registro histórico mais preciso do CO2 atmosférico.
A análise aponta que a última vez em que a atmosfera continha 420 partes por milhão (ppm) de CO2 foi entre 14 a 16 milhões de anos atrás, um período sem gelo na Groenlândia e quando os ancestrais dos humanos começavam a migrar das florestas para as savanas. Esse marco é significativamente mais distante do que as análises anteriores sugeriam, que apontavam para 3 a 5 milhões de anos atrás.
"Realmente nos faz perceber que o que estamos fazendo é extremamente incomum na história da Terra", disse Baerbel Hoenisch, autor principal do estudo e pesquisador da Escola de Clima da Columbia no Observatório da Terra Lamont-Doherty.
A preocupação aumenta ao constatar que, antes da industrialização, a concentração de CO2 era de cerca de 280 ppm, e que a civilização humana, que evoluiu há apenas 3 milhões de anos, está acostumada a um nível do mar e a um clima que podem ser drasticamente alterados pelo aquecimento global.
Caso as emissões de CO2 continuem a subir, estima-se que até 2100 os níveis podem atingir entre 600 a 800 ppm, lembrando condições da Terra durante o Eoceno, há 30 a 40 milhões de anos, quando a Antártica ainda não estava coberta por gelo e a fauna e flora eram profundamente diferentes.
O estudo, que também se baseia em 'proxies' para analisar a composição química de folhas antigas, minerais e plânctons, confirma que o período mais quente dos últimos 66 milhões de anos ocorreu há 50 milhões de anos, com o CO2 atingindo até 1.600 ppm e as temperaturas 12°C mais altas. Após um longo declínio, 2,5 milhões de anos atrás, o CO2 estabilizou-se em 270-280 ppm.
A equipe de pesquisa alerta que uma duplicação dos níveis de CO2 pode elevar a temperatura do planeta entre 5 a 8 graus Celsius, mas esse aumento ocorreria ao longo de centenas de milhares de anos, com efeitos em cascata nos sistemas terrestres. Hoenisch enfatiza a relevância dessas descobertas para os formuladores de políticas e adverte que, a menos que o carbono seja removido da atmosfera e as emissões sejam reduzidas em breve, as mudanças climáticas terão impactos duradouros e severos nos ecossistemas.
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