
Uma nova pesquisa revelou detalhes importantes sobre como as baleias de barbatana conseguem cantar debaixo d'água, e como o ruído de embarcações pode prejudicar a comunicação entre elas. O estudo publicado na Nature mostra que as adaptações evolutivas permitiram que esses mamíferos marinhos desenvolvessem um sistema vocal especializado para se comunicar nos oceanos.
Cientistas descobriram que as baleias de barbatana, como as espécies sei, comum minke e jubarte, utilizam laringes especializadas que lhes permitem criar grandes fluxos de ar durante a respiração para produzir sons, sem que haja a inalação de água. Coen Elemans, professor da Universidade do Sul da Dinamarca e autor do estudo, explicou que, diferentemente das baleias dentadas que desenvolveram um órgão vocal nasal, as baleias de barbatana possuem estruturas especializadas para a sonorização e reciclagem do ar.
A frequência com que as baleias cantam é geralmente baixa, em torno de um máximo de 300 hertz, e é fortemente afetada pelo barulho das embarcações que operam na mesma faixa de frequência. Isso impacta a capacidade de comunicação das baleias, podendo gerar estresse nos animais, segundo Joy Reidenberg, professora de anatomia da Icahn School of Medicine em Nova York.
"Esse mecanismo é ancestral e essencial para eles poderem produzir sons de baixa frequência em um ambiente onde o som é o único meio de comunicação", afirmou Elemans. Sharon Livermore, diretora de conservação marinha do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal, ressaltou que, diferentemente dos humanos que dependem da visão, as baleias vivem em um 'mundo completamente acústico'.
A poluição sonora das embarcações é uma ameaça real para as grandes baleias, afirmou Bekah Lane, especialista em pesquisa de campo de cetáceos no The Marine Mammal Center. Pesquisas indicam que o ruído constante dos navios pode elevar os níveis de estresse em algumas espécies, como a baleia-franca-do-atlântico-norte, que está criticamente ameaçada. "O ruído subaquático é um poluente invisível", disse Livermore.
Recentemente, a morte de cinco baleias-franca-do-atlântico-norte desde dezembro intensificou os apelos por regulamentações federais de navegação. Um grupo de organizações ambientais entrou com uma ação judicial para acelerar a implementação de regras propostas em 2022, que exigiriam que os marinheiros da Costa Leste reduzissem a velocidade para diminuir o risco de lesões ou morte dessas baleias. Lane apontou que a demanda do consumidor por transporte rápido de mercadorias através de grandes navios adiciona complexidade ao problema.
"Precisamos pensar criticamente sobre como nossas escolhas de consumo e poder de compra podem ter consequências reais para a vida marinha", destacou Lane. Esforços contínuos de pesquisa, juntamente com a colaboração de comitês locais de segurança portuária, indústria marítima e agências governamentais, são essenciais para encontrar soluções para proteger melhor as baleias, disse Lane.
Os pesquisadores esperam que a tecnologia futura permita o estudo de baleias vivas, algo quase impossível atualmente devido ao tamanho dos animais. Reidenberg mencionou a possibilidade de um veículo operado remotamente que pudesse se aproximar de uma baleia enquanto canta para fazer ultrassonografias, algo ideal, já que 'não podemos colocar uma baleia em um tomógrafo ou ressonância magnética', explicou.
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